Nascemos habitando um corpo que deseja, sente e pulsa. Essa é a nossa programação biológica. Dentro de cada um de nós, existe um eu sexual — aquele que se move pelo prazer, pela curiosidade sensorial, pelas emoções vívidas e pelo impulso criativo da energia vital. Esse eu é profundamente conectado ao corpo, à respiração, à pele, ao ritmo interno que pede movimento e expressão.
Mas também habitamos uma cultura que nos molda desde cedo para nos adequarmos, sermos aceitos e seguirmos certas expectativas. Assim nasce o eu social, um construto moldado pelas normas, convenções e regras do que é “apropriado”. E é nesse encontro — muitas vezes conflituoso — entre o eu sexual e o eu social que se instala uma tensão, por vezes silenciosa, por vezes barulhenta.
Stanley Keleman, pioneiro da psicologia somática, nos lembra que o corpo é modelado não apenas por forças biológicas, mas também por pressões culturais. Ele fala da formação de uma “anatomia emocional” que internaliza padrões sociais e os reproduz somaticamente. O eu social se imprime no corpo, tensiona-o, molda posturas e limita fluxos de energia e prazer.
Então se configura a disputa interna: enquanto o eu sexual busca autenticidade e prazer, o eu social tenta se proteger da rejeição, da vergonha ou da censura. A voz do corpo diz “quero e mereço”, mas a mente responde “não posso, não devo ou não mereço”. E assim, aos poucos, vamos reprimindo nossa sensorialidade, congelando emoções, descredibilizando desejos e nos afastando do erotismo como força viva e criativa.
Essa disputa interna gera consequências, desde evitação e vergonha em relação à própria sexualidade, até a descorporificação — um estado onde o corpo deixa de ser morada viva e passa a ser tratado como objeto, mecanismo, ou até mesmo um inimigo perigoso a ser combatido.
Com o tempo, essa cisão interna afeta diretamente nossa relação com o próprio erotismo. E aqui, vale lembrar: erotismo não se limita ao ato sexual. Como descreve Esther Perel, o erotismo é uma linguagem do desejo, uma força imaginativa que se alimenta da liberdade interior e da vitalidade do corpo. Ele é a textura única da nossa energia vital quando está viva, criativa e fluindo com autenticidade.
Margot Anand, em seu livro A Arte do Êxtase Sexual, reforça que o erotismo verdadeiro nasce do corpo desperto, do coração disponível e da presença que acolhe e honra cada sensação como sagrada. Quando o eu social silencia ou sabota o eu sexual, o erotismo perde seu brilho, sua espontaneidade e sua potência curativa.
Por isso, um caminho de reconciliação se faz necessário.
Na sexualidade somática e nas práticas tântricas, aprendemos a re-habitar o corpo com presença, acolher nossas sensações sem julgamento, escutar o impulso erótico sem medo e redescobrir o prazer como uma linguagem legítima e sagrada. Quando criamos espaço para que o eu sexual e o eu social dialoguem com mais compaixão e consciência, abrimos as portas para uma intimidade mais autêntica — com o outro, mas principalmente conosco.
Neste texto o que quero dizer é que o verdadeiro amadurecimento erótico não está em suprimir o desejo e o corpo em nome do pertencimento, nem em agir impulsivamente sem consciência, mas em integrar as partes em conflito. Dar voz ao corpo sem ter que se sentir inadequado ou inferior. Ser inteiro, e deixar a energia sexual se movimentar e criar novas realidades.
Como propõe David Schnarch, o desafio da sexualidade madura está em manter a integridade do self enquanto nos relacionamos com o outro — ser capaz de sustentar a tensão entre o desejo pessoal e o compromisso relacional, entre liberdade e conexão.
Essa é uma qualidade que precisa ser resgatada!